Os mitos e a rica espiritualidade do povo Anacé, que habita a região litorânea do Ceará, estão intimamente ligados ao seu território e à sua luta pela demarcação da terra e preservação do meio ambiente.
Embora os detalhes de narrativas mitológicas mais antigas (como histórias de criação) não estejam tão disponíveis em fontes públicas quanto suas crenças atuais, a força da sua cosmologia reside na relação com os Encantados e o território ancestral.
Aqui estão alguns dos aspectos centrais de suas crenças e "mitos" (entendidos como narrativas sagradas e fundadoras):
✨ Os Encantados e a Espiritualidade
A Corrente dos Encantados: Esta é uma das crenças espirituais mais importantes e mobilizadoras. Os Encantados são espíritos ancestrais e seres de força que protegem o povo e o território. A "corrente dos encantados" é uma força espiritual que atravessa a terra Anacé (incluindo marcos físicos como lagoas e matas) e atua na sua resistência e renascimento étnico.
O Morro/Mata dos Encantados: Lugares específicos no território, como a mata do Cai a Canga (na aldeia Matões), são considerados sagrados e são fontes de renovação espiritual e força ancestral. Relatos contam que, no morro, há um grupo de Encantados que, ao entrar no mar em noites escuras, norteia os pescadores no retorno à terra firme.
O Invisível Existe: Lideranças Anacé falam sobre a certeza da existência de um mundo invisível, onde os Encantados residem. Sentem que há "muito mais gente te observando" do que as que se veem, e que o invisível existe e se manifesta.
Encantaria Anacé e Retomadas: A sabedoria da encantaria Anacé (os Encantados) é quem informa o melhor local e período para as ações de retomada (ocupação e reivindicação de terras ancestrais), guiando as decisões dos guerreiros e lideranças.
🏞️ A Sacralidade do Território
O Lagamar do Cauípe: Esse complexo de lagoa, rio e dunas não é visto como uma paisagem comum ou recurso econômico, mas sim como um espaço sagrado que precisa ser protegido. O povo acredita que ali vivem seus deuses e passeiam os espíritos. Há a referência à Lagoa do Gereraú sendo designada como Pai Lagamar.
Conexão com a Mãe-Terra (Natureza): A espiritualidade Anacé estabelece uma conexão profunda com a Terra, as plantas e os animais, tratando-os como parentes. É regra no povo que quem destratar a Mãe-Terra (por exemplo, vendendo-a) não pertence mais ao povo Anacé. O ato de cuidar da terra é um ato de cura para "aquele ser que é a Terra".
🩸 Memória e Origem
O Massacre da Lagoa do Banana: Embora seja um evento histórico trágico, a narrativa recorrente sobre o massacre de centenas de indígenas que fez a lagoa "virar um mar de sangue" funciona como um mito de origem de sua identidade coletiva e marca a resistência contra a violência do colonizador.
A cosmologia e as crenças dos Anacé, portanto, não apenas explicam o mundo, mas também sustentam sua luta atual por autonomia e demarcação territorial no Ceará, especialmente contra grandes empreendimentos como o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP).
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