🥁 O Toré e a Luta Territorial do Povo Anacé
O Toré é a manifestação cultural e ritualística mais importante para os povos indígenas do Nordeste, e para os Anacé não é diferente. Ele não é apenas uma dança ou um canto, mas sim um instrumento fundamental de reafirmação de identidade, coesão social e resistência política.
1. O Toré como Força Política e Ritual
Comunicação com os Encantados: O Toré é o momento em que o povo se conecta com os Encantados e a força ancestral da terra. É um ritual sagrado onde os espíritos guiam e fortalecem o povo. Acredita-se que o canto e a dança abrem caminho para a intervenção do mundo invisível na luta pela terra.
Reafirmação Identitária: A realização do Toré, especialmente em espaços públicos ou em áreas de retomada, é um ato de visibilidade e denúncia. Ele demonstra publicamente a existência e a resistência do povo Anacé, combatendo a narrativa histórica de que eles teriam sido "extintos".
União Comunitária: O ritmo e o movimento coletivo do Toré fortalecem a coesão e a solidariedade entre os membros da aldeia, sendo essencial para manter o ânimo durante longos períodos de conflito territorial.
2. A Luta pela Terra Ancestral
A luta do povo Anacé está centrada na recuperação e na demarcação de seu território tradicional, que abrange áreas nos municípios de Caucaia e São Gonçalo do Amarante, no Ceará. Esta luta é marcada por um intenso conflito com o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP).
Ameaças do CIPP
O CIPP, um dos maiores complexos portuários e industriais do Nordeste, avançou drasticamente sobre o território tradicional Anacé. Este avanço trouxe consequências devastadoras:
Deslocamento e Conflito: O avanço da indústria (como a Companhia Siderúrgica do Pecém - CSP, e parques eólicos) resultou na expulsão e no cerco de comunidades Anacé, forçando-as a disputar áreas que são essenciais para sua subsistência e vida ritual.
Destruição Ambiental: A instalação do complexo e a construção de estradas destruíram ecossistemas vitais para o povo, como o Lagamar do Cauípe (um espaço sagrado) e matas ciliares, afetando a pesca, a coleta e a medicina tradicional.
Prejuízo à Espiritualidade: A destruição de marcos territoriais (como as dunas e o lagamar) é vista como um ataque direto aos Encantados e à própria força espiritual do povo.
Estratégias de Resistência Anacé
Os Anacé utilizam uma combinação de estratégias políticas, legais e rituais para resistir:
Ações Legais e Denúncias: Buscam o apoio de órgãos federais (como a FUNAI e o Ministério Público Federal) e denunciam as violações de direitos humanos e ambientais em nível nacional e internacional.
Retomadas: Realizam retomadas (ocupações) de partes de seu território ancestral que foram tomadas por empreendimentos, marcando sua presença física e política.
Mobilização Ritualística: O Toré é usado em todos esses momentos. Ele é dançado nas retomadas, em frente a órgãos públicos e em protestos, para invocar a proteção dos Encantados e fortalecer a união da comunidade.
Presente nas manifestações culturais de diversos povos indígenas que vivem no Nordeste, o Toré é um ritual que une música, dança, espiritualidade, luta e brincadeira. Ele varia de acordo com a cultura de cada povo.
O Toré é uma dança ritual realizada por diversos povos indígenas, inclusive os tradicionais da bacia hidrográfica do rio São Francisco. É considerado o símbolo maior de resistência e união entre esses povos e uma das principais tradições das populações indígenas do Nordeste brasileiro e de Minas Gerais.
O ritual é passado de geração à geração e possui diversos significados. Cada povo possui seu toré próprio, mas, em geral, envolve uma dança circular ao ar livre, na qual os indígenas, em fila ou em pares, acompanham o ritmo da dança com cantos ao som de maracás, zabumbas, gaitas e apitos.
Há vários grupos de Toré pelo Brasil, um deles é o grupo de Toré do rio São Francisco. O samba de coco influenciado pelo Toré ficou conhecido como Coco de Toré, o Grupo Cultural Indígena Walê Fulni-ô e Pandeiro do Mestre são alguns dos grupos que cantam esse tipo de coco.
Nas últimas décadas, tem sido um ponto focal de afirmação de etnicidade na luta por reconhecimento e conquista territorial dos povos indígenas do nordeste brasileiro, historicamente estigmatizados na figura do caboclo.
O Toré se tornou, para os indígenas em contexto urbano, uma estratégia de sobrevivência econômica e um espaço de ensinamento indígena. Foi possível constatar que o Toré atravessa as dimensões ritualísticas, político-econômicas e ideológicas para se constituir num modo de reterritorialização subjetiva neste contexto urbano. Sua força reflete o poder da música de romper barreiras psicológicas e espaciais e transportar signos culturais, em constante reinvenção, sem perder a potência de expressão.
O fato de possuírem motivações étnico-políticas não retira do toré também suas referências religiosas e culturais. Ele foi reelaborado em cada povo de acordo com crenças locais.
Os grupos étnicos praticantes do toré realizam intercâmbios nas letras das canções, também chamadas de “pontos de toré”, levando a música de um povo a outro, ou mesmo trocam formas de dançar. Um ponto, portanto, que se torna logo evidente na configuração cultural emblemática dos índios do Nordeste é a posse de um símbolo comum, o compartilhar de uma ideologia expressa ritualmente que, embora com conteúdos e formatos alterados entre muitas dessas comunidades, é recorrente ao informar (e constituir) a indianidade nordestina. O toré, dessa forma, vem promovendo o referencial da autoctonia nordestina e vale ser apreendido de forma processual porque é justamente a sua dinâmica dentro dos e entre os grupos étnicos que vem ordenando a vida indígena no Nordeste.
Haveria ainda que se considerar aspectos culturais impostos aos índios pelas agências indigenistas em termos de sua organização social e política. O “regime tutelar” estabeleceu um modo de ser característico para todos os grupos indígenas assistidos pela agência indigenista que, em termos administrativos, caracteriza uma indianidade imposta pelo Estado. Esse modo de ser característico dos indígenas sob administração tutelar, contudo, não é referido pelos indígenas como emblemas que os torna indígenas, mas como um aparato necessário decorrente do fato de ser índio no Brasil.
A seguir estão listadas algumas das etnias indígenas do Nordeste que praticam o toré:
Potiguara (PB,CE,PE,RN); Kariri-xokó (AL); Pankararu (MG,PE,SP); Kiriri (BA);
Kambiwá(PE);Tumbalalá(BA);Xukuru(PE);Pitaguary(CE);Truká(BA,PE);Kalankó(AL);Kapinawa (PE);Pataxó (BA);Tremembé (CE);Pipipã (PE);Pankará (PE); Anacé (CE);
Koiupanká (AL); Tuxá (AL,BA,PE); Pataxó-hã-hã-hãe (BA); Atikum (BA,PE);
Tupinambá (BA); Xokó (SE); Kaimbé (BA); Karuazu (AL) e Kantaruré (BA).
Assim como aconteceu com outros ritmos nordestinos que foram difundidos pelo Brasil com a migração nordestina, o mesmo sucedeu com o Toré junto aos indígenas migrantes, por exemplo, o caso dos Pankararu, muitos destituídos de suas terras tradicionais no Pernambuco vieram para a cidade de São Paulo para construir o Estádio do Morumbi, hoje muitos desses Pankararu moram na favela do Real Park, e fazem seus Torés nos Conjuntos Habitacionais e espaços públicos da cidade.
FONTE: https://geografianordeste.wordpress.com/2017/05/31/tore/
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