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quarta-feira 10 2025

"ESCONDIDO" ATÉ 1990, POVO ANACÉ OCUPA 25 ALDEIAS SEM ESCOLA INDÍGENA E COM CARÊNCIA DE SANEAMENTO. (2023)

Mais de 3 mil famílias não têm garantia de terras para morar e encontram defasagem de serviços públicos

Escrito por
Nícolas Paulinonicolas.paulino@svm.com.br 

O cemitério do povo indígena Anacé (que significa “parente”, na língua tapuia) foi erguido, segundo lideranças dessa comunidade, em 1630, em Caucaia, Região Metroplitana de Fortaleza (RMF). Porém, o mesmo grupo foi vítima de um apagamento histórico e, ainda hoje, enfrenta dificuldades para ter sua identidade oficialmente reconhecida - inclusive para receber serviços básicos como educação, saúde, transporte e saneamento.

Ao todo, são mais de 3 mil famílias vivendo em 25 aldeias no município, de acordo com Paulo França Anacé, um dos “cabeças” do movimento de luta. Isso sem contar a parcela que vive em São Gonçalo do Amarante, também na RMF, e ainda está iniciando o processo de autorreconhecimento.

(...)

Segundo a história oral dos Anacés, seus antepassados lutaram contra portugueses e holandeses desde o Rio Grande do Norte até o litoral do Ceará. Muitos deles morreram no Rio Cauípe (“rio onde caminha o Grande Espírito”), que para eles carrega parte da memória e ancestralidade do povo: é um local sagrado.

Por isso, os indígenas veem com preocupação a expansão de empreendimentos do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) na área. “Tiram água do rio para o complexo, não respeitam algo que conta nossa história e hoje é usado como mercadoria, pra esfriar placa de aço”, reclama Paulo.

Em nota, a administração do Complexo do Pecém declarou que acompanha as comunidades do seu entorno, “intermediando o apoio do poder público conforme o caso”. 

“As empresas que se instalam ou que venham a se instalar no complexo têm em suas responsabilidades, conforme exigido em seus licenciamentos específicos, as obrigações socioambientais e a preocupação com os possíveis impactos diretos e indiretos nas comunidades da área”, completa.

Desde a concepção do projeto do CIPP, em 1995, os Anacés temem desapropriações e a perda da terra, de onde a maioria das famílias retira o sustento por meio da pesca e da agricultura familiar.

O Governo do Estado buscou uma solução com a criação da Reserva Indígena Taba dos Anacés, em 2018, mas apenas 163 famílias foram remanejadas para lá. O restante dessa população, estimada em 3 mil núcleos familiares, está espalhada por uma região entre 15km e 20km da Reserva, segundo Paulo Anacé.

Aquelas que não aceitaram o acordo continuam lutando pela terra tradicionalmente ocupada - reconhecida, inclusive, pelo mapa da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), ainda que não seja demarcada. Aliás, a etapa de identificação, primeira do processo, está parada.

Estamos correndo atrás para que esse estudo seja concluído. Tá bem adiantado, mas falta apoio do Governo do Estado e Federal. É fato que a gente existe e a única coisa que vai resolver nossas demandas é a demarcação. Sem ela, não conseguimos nada.
Paulo Anacé
Liderança indígena

O Diário do Nordeste procurou a Funai, desde o dia 9 de fevereiro, para comentar como está a demarcação dos povos no Ceará e que diagnóstico tem da necessidade de saúde, saneamento e educação dessas populações. Porém, não houve retorno até esta publicação.

Mesmo sem atribuição direta sobre a demarcação dos territórios, a Secretaria Estadual dos Povos Indígenas (Sepince) declarou que "está comprometida com a aceleração do processo" para os povos cearenses. "Para essa demanda avançar, a Secretaria estará em constante diálogo com os povos indígenas do Ceará, Funai, Ministério dos Povos Indígenas e órgãos competentes", disse em nota.

Parte dos Anacés que buscam a garantia da terra vive na aldeia Parnamirim, também em Caucaia, onde mora Edna Flávia Anacé, de 63 anos. A artesã de mão cheia foi criada na roça, em meio a coités, jenipapos e jatobás, aprendendo a plantar, limpar e colher. Hoje, repassa seus conhecimentos a um grupo de mulheres indígenas.

Ligada intimamente à terra, inclusive percebendo a presença de espíritos ancestrais no território, Edna observa com apreensão movimentos de contestação da posse por empresários que querem explorar o potencial turístico da região.

“Não aceitam que o terreno é nosso! Querem derrubar dunas da lagoa do Parnamirim, uma das mais turísticas do Ceará, pra fazer parque e indústria, prejudicando o turismo do povo. Parte nossa é pescador, outra faz passeios (guias turísticos). Derrubando a duna, acaba o passeio, por isso começamos a retomada”, destaca.

Até mesmo o cemitério centenário está ameaçado por novas construções; hoje, já está cercado por muros, e apenas um caminho estreito garante o acesso de pessoas da comunidade.

O Diário do Nordeste também questionou à Prefeitura de Caucaia, desde o dia 9 de fevereiro, que tipo de assistência fornece à comunidade Anacé no município.

Em nota, a Prefeitura de Caucaia declarou que, embora a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) seja o órgão responsável por coordenar e executar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) distribui insumos (vacinas, medicamentos, entre outros) e mobiliza profissionais para atuação e suporte nas áreas indígenas. 

Já na Educação, o município disse contar com 7 escolas de educação indígena, que atende a Anacés e Tapebas, com cerca de 450 alunos matriculados. “Pra preservar a cultura e garantir o ensino a esses povos, a Secretaria Municipal de Educação (SME), possui um setor dentro da Diretoria Pedagógica com representantes das etnias”, complementa.

Por fim, mencionou que a Secretaria de Desenvolvimento Rural “realiza periodicamente” a recuperação de estradas vicinais, e que a Secretaria de Desenvolvimento Social e Trabalho (SDST) realiza cursos de capacitações profissional e empreendedorismo.

Escola reerguida

O direito à educação, embora constitucional, também está emperrado para os Anacés. A única escola indígena do Planalto Cauípe foi desativada, abandonada e depredada. Durante todo o ano de 2022, a comunidade esperou resposta do município, mas não houve reabertura. No fim do ano, os próprios indígenas começaram uma reforma no prédio.

“Tudo que tá aqui hoje foi a comunidade que fez ou doou: pintura, porta, grade, internet, cadeira, lousa”, conta o diretor Elber Anacé, 27. “Atualmente, todos os nossos 14 professores e gestão são voluntários”.

Legenda: Escola Indígena Joaquim da Rocha Franco foi reerguida com doações da própria comunidade
Foto: Kid Jr

Segundo ele, as duas escolas mais próximas não suprem as necessidades das aldeias e nem fornecem educação diferenciada indígena. Como o currículo da unidade reaberta foi construído a partir de demandas da própria comunidade, os pais se sentiram mais confortáveis para matricular os filhos, mesmo sem vínculo oficial com nenhuma rede. 

Para o primeiro ano letivo da unidade, em 2023, há 87 estudantes divididos entre Educação Infantil, anos iniciais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Pela falta de verbas, a gestão da escola decidiu solicitar apoio à Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) para ser integrada à rede estadual. Quando a reportagem esteve no local, uma equipe da Pasta também realizou visita para conhecer o espaço e a proposta.

Em nota, a Seduc informou que, para viabilizar a inclusão dessa escola na rede estadual de ensino, de forma imediata, garantindo pagamento de professores, recursos de manutenção e aquisição de equipamentos, “será necessário instituí-la como extensão de matrícula da Escola Indígena Direito de Aprender do Povo Anacé”, vinculada à reserva Taba dos Anacés. 

“A gente tem o trabalho com a espiritualidade, ancestralidade, cultura e todos os saberes que não são da escola convencional: a consulta aos troncos velhos, os alimentos, o toré, o uso das maracas e a sustentabilidade”, explica Elber. Desde cedo, as crianças são chamadas a cuidar da natureza.

(...)

Saúde deficiente

Natureza que está ameaçada. Com a instalação de tantos empreendimentos capazes de degradar o ambiente natural, os Anacés já percebem maior poluição da terra e do ar. Uma espécie de fuligem carregada pelo vento invade residências e cobre plantações, incluindo árvores frutíferas.

O Mapa da Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela ONG Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), enumera que o conflito entre Anacés e a indústria pode trazer uma série de prejuízos. Dentre eles:

  • Alteração no ciclo reprodutivo da fauna
  • Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território
  • Assoreamento e poluição de recurso hídrico
  • Contaminação ou intoxicação por substâncias nocivas
  • Poluição sonora, atmosférica e do solo

Como danos diretos e indiretos à saúde, o levantamento também descreve a possibilidade de acidentes, doenças não transmissíveis ou crônicas, insegurança alimentar, piora na qualidade de vida e até mesmo suicídio.

Segundo Paulo Anacé, têm crescido os relatos de câncer e doenças respiratórias na comunidade do Planalto Cauípe. Ao mesmo tempo, o acesso à saúde continua dificultado. 

O cemitério do povo indígena Anacé (que significa “parente”, na língua tapuia) foi erguido, segundo lideranças dessa comunidade, em 1630, em Caucaia, Região Metroplitana de Fortaleza (RMF). Porém, o mesmo grupo foi vítima de um apagamento histórico e, ainda hoje, enfrenta dificuldades para ter sua identidade oficialmente reconhecida - inclusive para receber serviços básicos como educação, saúde, transporte e saneamento.

Ao todo, são mais de 3 mil famílias vivendo em 25 aldeias no município, de acordo com Paulo França Anacé, um dos “cabeças” do movimento de luta. Isso sem contar a parcela que vive em São Gonçalo do Amarante, também na RMF, e ainda está iniciando o processo de autorreconhecimento.

(...)

“Nossos troncos velhos, os mais antigos, falavam que a gente não podia se dizer índio para não morrer”, narra Paulo. “Nos muros das casas, tinham faixas dizendo ‘não somos índios’ com medo de represálias. Nos escondemos até os anos 1990, mas levantamos de novo”.

Legenda: Em 2007, o Diário do Nordeste mostrava esforços de lideranças e entidades da causa indígena em ligar Anacés à terra em disputa
Foto: Cedoc/SVM

Segundo a história oral dos Anacés, seus antepassados lutaram contra portugueses e holandeses desde o Rio Grande do Norte até o litoral do Ceará. Muitos deles morreram no Rio Cauípe (“rio onde caminha o Grande Espírito”), que para eles carrega parte da memória e ancestralidade do povo: é um local sagrado.

Por isso, os indígenas veem com preocupação a expansão de empreendimentos do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) na área. “Tiram água do rio para o complexo, não respeitam algo que conta nossa história e hoje é usado como mercadoria, pra esfriar placa de aço”, reclama Paulo.

Em nota, a administração do Complexo do Pecém declarou que acompanha as comunidades do seu entorno, “intermediando o apoio do poder público conforme o caso”. 

“As empresas que se instalam ou que venham a se instalar no complexo têm em suas responsabilidades, conforme exigido em seus licenciamentos específicos, as obrigações socioambientais e a preocupação com os possíveis impactos diretos e indiretos nas comunidades da área”, completa.

Desde a concepção do projeto do CIPP, em 1995, os Anacés temem desapropriações e a perda da terra, de onde a maioria das famílias retira o sustento por meio da pesca e da agricultura familiar.

O Governo do Estado buscou uma solução com a criação da Reserva Indígena Taba dos Anacés, em 2018, mas apenas 163 famílias foram remanejadas para lá. O restante dessa população, estimada em 3 mil núcleos familiares, está espalhada por uma região entre 15km e 20km da Reserva, segundo Paulo Anacé.

Aquelas que não aceitaram o acordo continuam lutando pela terra tradicionalmente ocupada - reconhecida, inclusive, pelo mapa da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), ainda que não seja demarcada. Aliás, a etapa de identificação, primeira do processo, está parada.

Estamos correndo atrás para que esse estudo seja concluído. Tá bem adiantado, mas falta apoio do Governo do Estado e Federal. É fato que a gente existe e a única coisa que vai resolver nossas demandas é a demarcação. Sem ela, não conseguimos nada.

Paulo Anacé
Liderança indígena

O Diário do Nordeste procurou a Funai, desde o dia 9 de fevereiro, para comentar como está a demarcação dos povos no Ceará e que diagnóstico tem da necessidade de saúde, saneamento e educação dessas populações. Porém, não houve retorno até esta publicação.

Mesmo sem atribuição direta sobre a demarcação dos territórios, a Secretaria Estadual dos Povos Indígenas (Sepince) declarou que "está comprometida com a aceleração do processo" para os povos cearenses. "Para essa demanda avançar, a Secretaria estará em constante diálogo com os povos indígenas do Ceará, Funai, Ministério dos Povos Indígenas e órgãos competentes", disse em nota.

Parte dos Anacés que buscam a garantia da terra vive na aldeia Parnamirim, também em Caucaia, onde mora Edna Flávia Anacé, de 63 anos. A artesã de mão cheia foi criada na roça, em meio a coités, jenipapos e jatobás, aprendendo a plantar, limpar e colher. Hoje, repassa seus conhecimentos a um grupo de mulheres indígenas.

Legenda: Fabricação de peças de artesanato é repassada por Edna Anacé a um grupo de mulheres da comunidade. Foto: Kid Jr

Ligada intimamente à terra, inclusive percebendo a presença de espíritos ancestrais no território, Edna observa com apreensão movimentos de contestação da posse por empresários que querem explorar o potencial turístico da região.

“Não aceitam que o terreno é nosso! Querem derrubar dunas da lagoa do Parnamirim, uma das mais turísticas do Ceará, pra fazer parque e indústria, prejudicando o turismo do povo. Parte nossa é pescador, outra faz passeios (guias turísticos). Derrubando a duna, acaba o passeio, por isso começamos a retomada”, destaca.

Até mesmo o cemitério centenário está ameaçado por novas construções; hoje, já está cercado por muros, e apenas um caminho estreito garante o acesso de pessoas da comunidade.

O Diário do Nordeste também questionou à Prefeitura de Caucaia, desde o dia 9 de fevereiro, que tipo de assistência fornece à comunidade Anacé no município.

Em nota, a Prefeitura de Caucaia declarou que, embora a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) seja o órgão responsável por coordenar e executar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) distribui insumos (vacinas, medicamentos, entre outros) e mobiliza profissionais para atuação e suporte nas áreas indígenas. 

Já na Educação, o município disse contar com 7 escolas de educação indígena, que atende a Anacés e Tapebas, com cerca de 450 alunos matriculados. “Pra preservar a cultura e garantir o ensino a esses povos, a Secretaria Municipal de Educação (SME), possui um setor dentro da Diretoria Pedagógica com representantes das etnias”, complementa.

Por fim, mencionou que a Secretaria de Desenvolvimento Rural “realiza periodicamente” a recuperação de estradas vicinais, e que a Secretaria de Desenvolvimento Social e Trabalho (SDST) realiza cursos de capacitações profissional e empreendedorismo.

Escola reerguida

O direito à educação, embora constitucional, também está emperrado para os Anacés. A única escola indígena do Planalto Cauípe foi desativada, abandonada e depredada. Durante todo o ano de 2022, a comunidade esperou resposta do município, mas não houve reabertura. No fim do ano, os próprios indígenas começaram uma reforma no prédio.

“Tudo que tá aqui hoje foi a comunidade que fez ou doou: pintura, porta, grade, internet, cadeira, lousa”, conta o diretor Elber Anacé, 27. “Atualmente, todos os nossos 14 professores e gestão são voluntários”.

Legenda: Escola Indígena Joaquim da Rocha Franco foi reerguida com doações da própria comunidade. Foto: Kid Jr

Segundo ele, as duas escolas mais próximas não suprem as necessidades das aldeias e nem fornecem educação diferenciada indígena. Como o currículo da unidade reaberta foi construído a partir de demandas da própria comunidade, os pais se sentiram mais confortáveis para matricular os filhos, mesmo sem vínculo oficial com nenhuma rede. 

Para o primeiro ano letivo da unidade, em 2023, há 87 estudantes divididos entre Educação Infantil, anos iniciais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Pela falta de verbas, a gestão da escola decidiu solicitar apoio à Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) para ser integrada à rede estadual. Quando a reportagem esteve no local, uma equipe da Pasta também realizou visita para conhecer o espaço e a proposta.

Em nota, a Seduc informou que, para viabilizar a inclusão dessa escola na rede estadual de ensino, de forma imediata, garantindo pagamento de professores, recursos de manutenção e aquisição de equipamentos, “será necessário instituí-la como extensão de matrícula da Escola Indígena Direito de Aprender do Povo Anacé”, vinculada à reserva Taba dos Anacés. 

“A gente tem o trabalho com a espiritualidade, ancestralidade, cultura e todos os saberes que não são da escola convencional: a consulta aos troncos velhos, os alimentos, o toré, o uso das maracas e a sustentabilidade”, explica Elber. Desde cedo, as crianças são chamadas a cuidar da natureza.

Saúde deficiente

Natureza que está ameaçada. Com a instalação de tantos empreendimentos capazes de degradar o ambiente natural, os Anacés já percebem maior poluição da terra e do ar. Uma espécie de fuligem carregada pelo vento invade residências e cobre plantações, incluindo árvores frutíferas.

O Mapa da Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela ONG Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), enumera que o conflito entre Anacés e a indústria pode trazer uma série de prejuízos. Dentre eles:

  • Alteração no ciclo reprodutivo da fauna
  • Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território
  • Assoreamento e poluição de recurso hídrico
  • Contaminação ou intoxicação por substâncias nocivas
  • Poluição sonora, atmosférica e do solo

Como danos diretos e indiretos à saúde, o levantamento também descreve a possibilidade de acidentes, doenças não transmissíveis ou crônicas, insegurança alimentar, piora na qualidade de vida e até mesmo suicídio.

Segundo Paulo Anacé, têm crescido os relatos de câncer e doenças respiratórias na comunidade do Planalto Cauípe. Ao mesmo tempo, o acesso à saúde continua dificultado. 


“Para os nossos curumins serem vacinados, precisamos ir para o Ministério Público e tudo. Além disso, o posto mais próximo fica lá na reserva, no Garrote. São mais de 15 km de distância. A gente espera o nosso há oito anos”, afirma.

(...)

Luta continua

As lideranças acreditam sofrer um longo processo de privações - água, saneamento, educação, saúde - para serem vencidas pelo cansaço e desistirem da demarcação. Elas, no entanto, tomam para si a responsabilidade de proteger o ambiente porque entendem território na perspectiva de cuidado, não apenas de ocupação.

“Com todos esses impactos, não sabemos nem se vai ter peixe no futuro. Não temos nada contra esse suposto progresso, mas precisam entender que os Anacés existem e resistem. Queremos que a nossa história e luta tenham mais espaço. É pelo bem de todos”, finaliza Paulo Anacé.

Mesmo tão jovem, Elber compreende os motivos pelos quais seus antepassados foram agredidos, tanto física quanto psicologicamente, por isso tem força para bradar: “hoje, nossa aldeia não tem mais medo”. 

“A gente indígena tem algo que nos alimenta que um não-indígena não entende. Fomos perseguidos, excluídos e mortos. Se não assumirmos essa responsabilidade, vamos continuar sendo perseguidos e mortos. Conhecimento liberta. Quando a gente traz conhecimento para o povo, o povo perde o medo”, sustenta o professor.

FONTE: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ceara/escondido-ate-1990-povo-anace-ocupa-25-aldeias-sem-escola-indigena-e-com-carencia-de-saneamento-1.3340019

terça-feira 09 2025

O MASSACRE DA LAGOA DO BANANA


Lagoa do Banana atualmente
🩸 O Massacre da Lagoa do Banana: A Origem da Ocultação Anacé

O Massacre da Lagoa do Banana é um evento de profunda importância na memória coletiva e na história do povo Anacé. Ele não é apenas um fato histórico trágico, mas sim um marco fundador da sua identidade de resistência e da necessidade de ocultação que o povo viveu por séculos.

O Evento Histórico

O massacre ocorreu no local que é hoje conhecido como Lagoa do Banana, na região do Cumbuco (município de Caucaia, Ceará). Embora a data exata seja difícil de precisar devido à falta de registros oficiais não indígenas da época, os relatos orais o situam em um período de intensa violência contra os povos originários durante o processo de colonização.

A Narrativa do Povo Anacé:

  • Emboscada e Extermínio: Os relatos orais da memória Anacé falam de um ataque covarde e brutal. Centenas de indígenas foram emboscados e assassinados pelo exército e por tropas coloniais durante a noite.

  • "Mar de Sangue": A violência foi tamanha que a lagoa, palco do massacre, teria se transformado em um "mar de sangue". Esta imagem é central na narrativa e simboliza a extensão do genocídio.

  • O Objetivo: O ataque fazia parte da política colonial de extermínio e expulsão dos indígenas da zona costeira do Ceará, uma área rica e cobiçada para empreendimentos econômicos (na época, a pecuária e, hoje, o Complexo do Pecém).

O Impacto para a Sobrevivência Anacé

O Massacre da Lagoa do Banana é o ponto de virada que explica o fenômeno da "ocultação" ou "emergência étnica" dos Anacé e de outros povos do Nordeste:

  • Ocultação da Identidade: Os sobreviventes que conseguiram fugir e se dispersar pelo território tiveram que ocultar sua identidade indígena para não serem vítimas de um novo ataque.

    "Nós ficamos numa situação que não podia dizer, não podia se falar que era índio porque se dissesse que era índio, morria." — Liderança Anacé

  • Estratégia de Sobrevivência: A partir desse momento, falar publicamente sobre a ascendência indígena era assinar uma sentença de morte. Eles se misturaram com a população local, assumindo a identidade de "ribeirinhos", "pescadores" ou "caboclos" pobres, mas mantiveram suas tradições e memória em segredo, transmitidas oralmente de geração para geração.

  • O Renascimento: A narrativa recorrente sobre esse massacre se torna um pilar para a afirmação da identidade comum e da origem do povo Anacé. A memória da violência sofrida é o que une os descendentes e impulsiona a luta pelo reconhecimento oficial e pela demarcação de seu território ancestral a partir do final do século XX.

segunda-feira 08 2025

A DANÇA DO TORÉ

  

🥁 O Toré e a Luta Territorial do Povo Anacé

O Toré é a manifestação cultural e ritualística mais importante para os povos indígenas do Nordeste, e para os Anacé não é diferente. Ele não é apenas uma dança ou um canto, mas sim um instrumento fundamental de reafirmação de identidade, coesão social e resistência política.

1. O Toré como Força Política e Ritual

  • Comunicação com os Encantados: O Toré é o momento em que o povo se conecta com os Encantados e a força ancestral da terra. É um ritual sagrado onde os espíritos guiam e fortalecem o povo. Acredita-se que o canto e a dança abrem caminho para a intervenção do mundo invisível na luta pela terra.

  • Reafirmação Identitária: A realização do Toré, especialmente em espaços públicos ou em áreas de retomada, é um ato de visibilidade e denúncia. Ele demonstra publicamente a existência e a resistência do povo Anacé, combatendo a narrativa histórica de que eles teriam sido "extintos".

  • União Comunitária: O ritmo e o movimento coletivo do Toré fortalecem a coesão e a solidariedade entre os membros da aldeia, sendo essencial para manter o ânimo durante longos períodos de conflito territorial.

2. A Luta pela Terra Ancestral

A luta do povo Anacé está centrada na recuperação e na demarcação de seu território tradicional, que abrange áreas nos municípios de Caucaia e São Gonçalo do Amarante, no Ceará. Esta luta é marcada por um intenso conflito com o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP).

Ameaças do CIPP

O CIPP, um dos maiores complexos portuários e industriais do Nordeste, avançou drasticamente sobre o território tradicional Anacé. Este avanço trouxe consequências devastadoras:

  • Deslocamento e Conflito: O avanço da indústria (como a Companhia Siderúrgica do Pecém - CSP, e parques eólicos) resultou na expulsão e no cerco de comunidades Anacé, forçando-as a disputar áreas que são essenciais para sua subsistência e vida ritual.

  • Destruição Ambiental: A instalação do complexo e a construção de estradas destruíram ecossistemas vitais para o povo, como o Lagamar do Cauípe (um espaço sagrado) e matas ciliares, afetando a pesca, a coleta e a medicina tradicional.

  • Prejuízo à Espiritualidade: A destruição de marcos territoriais (como as dunas e o lagamar) é vista como um ataque direto aos Encantados e à própria força espiritual do povo.

Estratégias de Resistência Anacé

Os Anacé utilizam uma combinação de estratégias políticas, legais e rituais para resistir:

  1. Ações Legais e Denúncias: Buscam o apoio de órgãos federais (como a FUNAI e o Ministério Público Federal) e denunciam as violações de direitos humanos e ambientais em nível nacional e internacional.

  2. Retomadas: Realizam retomadas (ocupações) de partes de seu território ancestral que foram tomadas por empreendimentos, marcando sua presença física e política.

  3. Mobilização Ritualística: O Toré é usado em todos esses momentos. Ele é dançado nas retomadas, em frente a órgãos públicos e em protestos, para invocar a proteção dos Encantados e fortalecer a união da comunidade.

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Presente nas manifestações culturais de diversos povos indígenas que vivem no Nordeste, o Toré é um ritual que une música, dança, espiritualidade, luta e brincadeira. Ele varia de acordo com a cultura de cada povo.

O Toré é uma dança ritual realizada por diversos povos indígenas, inclusive os tradicionais da bacia hidrográfica do rio São Francisco. É considerado o símbolo maior de resistência e união entre esses povos e uma das principais tradições das populações indígenas do Nordeste brasileiro e de Minas Gerais.

O ritual é passado de geração à geração e possui diversos significados. Cada povo possui seu toré próprio, mas, em geral, envolve uma dança circular ao ar livre, na qual os indígenas, em fila ou em pares, acompanham o ritmo da dança com cantos ao som de maracás, zabumbas, gaitas e apitos.

Há vários grupos de Toré pelo Brasil, um deles é o grupo de Toré do rio São Francisco. O samba de coco influenciado pelo Toré ficou conhecido como Coco de Toré, o Grupo Cultural Indígena Walê Fulni-ô e Pandeiro do Mestre são alguns dos grupos que cantam esse tipo de coco.

Nas últimas décadas, tem sido um ponto focal de afirmação de etnicidade na luta por reconhecimento e conquista territorial dos povos indígenas do nordeste brasileiro, historicamente estigmatizados na figura do caboclo.

O Toré se tornou, para os indígenas em contexto urbano, uma estratégia de sobrevivência econômica e um espaço de ensinamento indígena. Foi possível constatar que o Toré atravessa as dimensões ritualísticas, político-econômicas e ideológicas para se constituir num modo de reterritorialização subjetiva neste contexto urbano. Sua força reflete o poder da música de romper barreiras psicológicas e espaciais e transportar signos culturais, em constante reinvenção, sem perder a potência de expressão.

O SPI (Serviço de Proteção ao Índio), desempenhando seu papel de órgão indigenista oficial, adotou critérios como referência para estabelecimento da identidade indígena de um grupo, o inspetor do SPI no Nordeste passou a requerer, na primeira metade do século XX, a exibição da dança do toré para se atestar a indianidade dos indígenas no Nordeste, a partir do ritual desenvolvido pelos Fulni-ô, que foi o primeiro povo a ter um posto do SPI. Mesmo os grupos que apresentavam outras manifestações culturais (outras danças) incorporam o toré (ou a retórica do toré) como padrão de etnicidade. Passou, assim, a assumir espaço central na reelaboração cultural destes grupos. Além disso, à medida que um povo conseguia seu reconhecimento, intermediavam também os processos de outros povos que iniciavam sua reivindicação, pedindo ao órgão oficial que atuasse junto àqueles grupos ainda não reconhecidos. O toré era transmitido de um povo a outro, no que seria o processo de “levantamento da aldeia”. Contudo, cada povo estabeleceu seu regime próprio do toré, incorporando crenças e tradições próprias.

O fato de possuírem motivações étnico-políticas não retira do toré também suas referências religiosas e culturais. Ele foi reelaborado em cada povo de acordo com crenças locais.

Os grupos étnicos praticantes do toré realizam intercâmbios nas letras das canções, também chamadas de “pontos de toré”, levando a música de um povo a outro, ou mesmo trocam formas de dançar. Um ponto, portanto, que se torna logo evidente na configuração cultural emblemática dos índios do Nordeste é a posse de um símbolo comum, o compartilhar de uma ideologia expressa ritualmente que, embora com conteúdos e formatos alterados entre muitas dessas comunidades, é recorrente ao informar (e constituir) a indianidade nordestina. O toré, dessa forma, vem promovendo o referencial da autoctonia nordestina e vale ser apreendido de forma processual porque é justamente a sua dinâmica dentro dos e entre os grupos étnicos que vem ordenando a vida indígena no Nordeste.

Haveria ainda que se considerar aspectos culturais impostos aos índios pelas agências indigenistas em termos de sua organização social e política. O “regime tutelar” estabeleceu um modo de ser característico para todos os grupos indígenas assistidos pela agência indigenista que, em termos administrativos, caracteriza uma indianidade imposta pelo Estado. Esse modo de ser característico dos indígenas sob administração tutelar, contudo, não é referido pelos indígenas como emblemas que os torna indígenas, mas como um aparato necessário decorrente do fato de ser índio no Brasil.

A seguir estão listadas algumas das etnias indígenas do Nordeste que praticam o toré:

Potiguara (PB,CE,PE,RN); Kariri-xokó (AL); Pankararu (MG,PE,SP); Kiriri (BA);

Kambiwá(PE);Tumbalalá(BA);Xukuru(PE);Pitaguary(CE);Truká(BA,PE);Kalankó(AL);Kapinawa (PE);Pataxó (BA);Tremembé (CE);Pipipã (PE);Pankará (PE); Anacé (CE);

Koiupanká (AL); Tuxá (AL,BA,PE); Pataxó-hã-hã-hãe (BA); Atikum (BA,PE);

Tupinambá (BA); Xokó (SE); Kaimbé (BA); Karuazu (AL) e Kantaruré (BA).

Assim como aconteceu com outros ritmos nordestinos que foram difundidos pelo Brasil com a migração nordestina, o mesmo sucedeu com o Toré junto aos indígenas migrantes, por exemplo, o caso dos Pankararu, muitos destituídos de suas terras tradicionais no Pernambuco vieram para a cidade de São Paulo para construir o Estádio do Morumbi, hoje muitos desses Pankararu moram na favela do Real Park, e fazem seus Torés nos Conjuntos Habitacionais e espaços públicos da cidade.

FONTE: https://geografianordeste.wordpress.com/2017/05/31/tore/

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domingo 07 2025

MITOLOGIA ANACÉ

Os mitos e a rica espiritualidade do povo Anacé, que habita a região litorânea do Ceará, estão intimamente ligados ao seu território e à sua luta pela demarcação da terra e preservação do meio ambiente.

Embora os detalhes de narrativas mitológicas mais antigas (como histórias de criação) não estejam tão disponíveis em fontes públicas quanto suas crenças atuais, a força da sua cosmologia reside na relação com os Encantados e o território ancestral.

Aqui estão alguns dos aspectos centrais de suas crenças e "mitos" (entendidos como narrativas sagradas e fundadoras):

✨ Os Encantados e a Espiritualidade

  • A Corrente dos Encantados: Esta é uma das crenças espirituais mais importantes e mobilizadoras. Os Encantados são espíritos ancestrais e seres de força que protegem o povo e o território. A "corrente dos encantados" é uma força espiritual que atravessa a terra Anacé (incluindo marcos físicos como lagoas e matas) e atua na sua resistência e renascimento étnico.

  • O Morro/Mata dos Encantados: Lugares específicos no território, como a mata do Cai a Canga (na aldeia Matões), são considerados sagrados e são fontes de renovação espiritual e força ancestral. Relatos contam que, no morro, há um grupo de Encantados que, ao entrar no mar em noites escuras, norteia os pescadores no retorno à terra firme.

  • O Invisível Existe: Lideranças Anacé falam sobre a certeza da existência de um mundo invisível, onde os Encantados residem. Sentem que há "muito mais gente te observando" do que as que se veem, e que o invisível existe e se manifesta.

  • Encantaria Anacé e Retomadas: A sabedoria da encantaria Anacé (os Encantados) é quem informa o melhor local e período para as ações de retomada (ocupação e reivindicação de terras ancestrais), guiando as decisões dos guerreiros e lideranças.

🏞️ A Sacralidade do Território

  • O Lagamar do Cauípe: Esse complexo de lagoa, rio e dunas não é visto como uma paisagem comum ou recurso econômico, mas sim como um espaço sagrado que precisa ser protegido. O povo acredita que ali vivem seus deuses e passeiam os espíritos. Há a referência à Lagoa do Gereraú sendo designada como Pai Lagamar.

  • Conexão com a Mãe-Terra (Natureza): A espiritualidade Anacé estabelece uma conexão profunda com a Terra, as plantas e os animais, tratando-os como parentes. É regra no povo que quem destratar a Mãe-Terra (por exemplo, vendendo-a) não pertence mais ao povo Anacé. O ato de cuidar da terra é um ato de cura para "aquele ser que é a Terra".

🩸 Memória e Origem

  • O Massacre da Lagoa do Banana: Embora seja um evento histórico trágico, a narrativa recorrente sobre o massacre de centenas de indígenas que fez a lagoa "virar um mar de sangue" funciona como um mito de origem de sua identidade coletiva e marca a resistência contra a violência do colonizador.

A cosmologia e as crenças dos Anacé, portanto, não apenas explicam o mundo, mas também sustentam sua luta atual por autonomia e demarcação territorial no Ceará, especialmente contra grandes empreendimentos como o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP).


sábado 06 2025

O ASSOBIADOR - Povo Anacé 2008

  

FONTE: Canal Povos indígenas no Brasil

NO VÍDEO

"(...) - A QUESTÃO DO MUNICÍPIO, NÉ CONCEIÇÃO, O MUNICÍPIO DE SÃO GONÇALO DO AMARANTE QUE ANTIGAMENTE ERA ANACETABA.

- UM NOME TÃO BONITO E HOJE ESCONDIDO (...) FICA ESCONDENDO ESSA HISTÓRIA TÃO BONITA (...) ESCONDE POR PURA VERGONHA..."

sexta-feira 05 2025

(NOTÍCIA-2023) 'EXTINTOS", ESQUECIDOS E AMEAÇADOS: INDÍGENAS DO CEARÁ LUTAM PELA PRÓPRIA TERRA, SAÚDE E EDUCAÇÃO.

Tapebas, Anacés, Pitaguarys e Jenipapos-Kanindé compartilham processos contra apagamento histórico e remoção de terras tradicionalmente ocupadas


Extintos por mais de 100 anos da história oficial do Ceará, os povos indígenas que habitam o Estado vivenciam um processo de recuperação étnica desde a década de 1970. Depois de viverem escondidos para não sofrerem novos massacres, hoje lutam pela demarcação de terras e direitos básicos, como saúde, educação e saneamento.

(...)
Antes de lutar por decisões práticas, os indígenas cearenses precisaram confirmar a própria existência. O Estado viveu um processo de colonização tardio, quando comparado a outras capitanias nordestinas, como Pernambuco e Bahia, e os povos originários que aqui residiam manifestaram ampla resistência ao avanço dos portugueses.

Pouco a pouco, de massacre em massacre, foram sendo empurrados do litoral para o interior do Estado, criando diferentes fluxos migratórios. A negação de sua existência foi assinada até mesmo em papel: em 1863, o então presidente da Província do Ceará, José Bento da Cunha Figueiredo, declarou à Assembleia Legislativa que a população indígena cearense estava extinta. 

O decreto acabou oficializando a expropriação das terras dos povos originários. Um contrassenso, pois o próprio nome do Estado vem de “siará”, que significa “canto da jandaia” - na linguagem tupi, um tipo de papagaio. 

Segundo o memorial da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (Fepoince), para se pouparem e protegerem as próprias vidas, eles “tiveram que permanecer em silêncio sobre suas etnicidades por mais de um século”.

Só nos anos 1970, a mobilização social no Ceará tirou os indígenas da invisibilidade e passou a exigir a efetivação de seus direitos, iniciada pelos povos Tapeba, Tremembé, Pitaguary e Jenipapo-Kanindé. 

Hoje, existem 15 povos indígenas no Estado, espalhados pelo litoral, serra e sertão.

Indígenas na RMF

Veja as principais informações sobre os povos que vivem ao redor de Fortaleza



O movimento de retomada - como eles chamam a reaquisição de terras e direitos - ganhou força em 1984, quando o cardeal Dom Aloísio Lorscheider criou a Pastoral Indigenista na Arquidiocese de Fortaleza e se engajou pessoalmente na causa. 

Em 1989, a nova constituição estadual não só reconheceu a existência de indígenas no Ceará como comprometeu seus organismos públicos a darem-lhe assistência.

Nos últimos 50 anos, o autorreconhecimento foi ganhando força. O Censo de 2000 indicava uma população de 12.198 indígenas no Estado. No levantamento seguinte, em 2010, o número cresceu para 20.697. Em 2015, estimativa do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) já dava conta de 29.211 pessoas.

Juliana Alves, a Cacika Irê do povo Jenipapo-Kanindé, titular da inédita Secretaria dos Povos Indígenas do Governo do Ceará (Sepince), explica que hoje a população total já pode ter passado de 50 mil. O número atualizado deve sair com a finalização do Censo 2022.

A gestora reconhece que a demarcação é necessária para todas as comunidades, mas não será a única política pública articulada institucionalmente. Entre as áreas que devem ser discutidas, estão:

  • esporte e lazer para a juventude, com demandas por areninhas, bibliotecas e academias populares;
  • emprego e renda, porque ainda há precariedade de negócios próximos às comunidades tradicionais;
  • apoio às mulheres indígenas;
  • educação escolar indigena e formação de professores.

“Claro que são ações que não vamos demandar a curto prazo, são a médio e longo. Vamos trabalhar com várias pastas, sempre com muito diálogo com o governador e outros secretários”, projeta Irê.

Atualmente, além de articulações próprias e de contar com o apoio de organizações da sociedade civil, as comunidades indígenas também necessitam de cooperação com outros órgãos públicos para fiscalizar a efetivação das leis.

O Diário do Nordeste questionou à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), desde o dia 9 de fevereiro, como está o andamento do processo de demarcação dos quatro povos mencionados; como monitora situações de ameaça/violência contra eles e que diagnóstico possui quanto à necessidade de saúde, saneamento e educação dessas populações. Porém, decorridas três semanas, não houve resposta.

Em nota, o Ministério Público Federal no Ceará (MPF-CE) informou que pode atuar na defesa dos direitos indígenas a partir de demandas recebidas da sociedade e por iniciativa própria, quando toma conhecimento de possíveis atos que atentem contra a legislação brasileira e contra os direitos assegurados aos cidadãos. 

“Nos últimos anos, o órgão atuou em temas como segurança, saúde, alimentação e demarcação de terra indígena na Região Metropolitana de Fortaleza”, esclarece. Entre as ações, estão pedidos de manutenção da infraestrutura de escolas e do impedimento à venda e locação ilegais de imóveis a não indígenas.

Ameaças constantes

Embora tenha havido conquistas, essa trajetória também foi marcada por inúmeras ameaças de violência contra lideranças que tomaram a frente dos processos demarcatórios, ao enfrentarem interesses comerciais ou empresariais em suas respectivas áreas.

Paulo França Anacé teve um revólver apontado para a própria cabeça. Elber Anacé já foi vigiado e impedido de ficar em casa. Clécia Pitaguary recebeu ligações perguntando por que não havia seguido o caminho de sempre, onde seria emboscada e morta. Os Tapebas ainda têm receio de se manifestarem publicamente de forma mais enérgica.

“Ainda há o estereótipo do indígena como povo da mata, mas no Nordeste, houve uma agressão diferente. O povo de outras regiões tem minérios que funcionaram como moeda de troca; aqui, a gente só tem a terra”, reflete o pedagogo Elber Anacé, jovem liderança desse povo em Caucaia.

Mesmo com a garantia de forças de segurança de que não há mais riscos como há alguns anos, Clécia Pitaguary ainda não consegue “andar de peito aberto”. A comunicação com ela ainda é intermediada, os itinerários são calculados, a família também é orientada a se cuidar.

“Existe um projeto de destruição que a gente não permite. Já tive muitos conflitos, denunciei várias vezes, me ameaçaram na frente dos policiais. Tem gente grande que se incomoda, mas também tem gente pequena que não gosta”, afirma Clécia.

Questionamos à Polícia Federal no Ceará (PF-CE) como a PF atua nesses casos e se há um monitoramento permanente quanto a essas situações. O órgão respondeu que não se manifesta e que as investigações em curso seguem em sigilo legal. Também ressaltou que recebe notícias de crime através dos canais oficiais disponíveis. 

Educação diferenciada

Como levantado pela Cacika Irê, um dos pontos de atenção dos povos indígenas cearenses é a educação, entendida como modificadora da realidade. Atualmente, a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) mantém 39 escolas indígenas (EI), com matrícula superior a 7 mil estudantes. Do total de unidades, 14 ficam na Região Metropolitana.

Uma delas é a Escola Ita-Ara, do povo Pitaguary, em Pacatuba, inaugurada em 2009. Antes, a casa de apoio da comunidade era que funcionava como espaço educacional. “A intenção da construção da escola partiu da necessidade de manter nossa cultura viva”, comenta a professora Vitória Pitaguary, 27.

A gente recebe a grade curricular, mas procuramos inserir algo da nossa cultura para que ela não morra. Nossos troncos velhos estão morrendo, então temos que passar para a base. Fazemos inclusive noites culturais e envolvemos toda a comunidade, a cada 2 ou 3 meses.

quarta-feira 03 2025

TABA DOS ANACÉ - 2019

 
FONTE: Canal Iago Barreto - 2019

NO VÍDEO:

  • Genocídio.
  • Língua perdida.
  • Preconceito: Provar que é indígena.
  • Relocação: moradia.
  • Adaptação.