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quarta-feira 17 2025

POESIA 📜 Pescadores da Taíba

Imagem: Pinterest

PESCADORES DA TAÍBA
AUTOR: Álvaro Martins


As dunas têm perfeito acabamento
De fina alvenaria,
Posto sejam em contínuo movimento,
Cirandando remota alegoria.
As dunas são tecidas d seus lenços:
Ampulhetas enormes, velhos sinos
De doidos pensamentos
Badalando galopes beduínos.
As dunas são efêmeras,
Mas, num dado momento, estão eternas,
No solene silêncio das quimeras.
Mulheres bronzeadas que se estendem,
Com sempre renovada pele tenra,
As dunas se sucedem.

Incontável cardume deu à praia:
Foi instante de quase eternidade.
Eram mil diamantes,
Mais a mais ofuscante claridade
De laca, madrepérola, de jade
Em maravilhoso átimo na areia.
Maré cheia,
O ar levou de volta o que era seu.
E se perdeu,
Na imagem que se esvai,
Rara oportunidade de um haicai.


Uma estrela do mar,
Algumas conchas,
Um pequeno hipocampo,
Velho búzio,
Os corais retirados do arrecife,
Duas boias perdidas nas bonanças,
Mais três ou quatro coisas
Se compõem
Num colar de marinhas esperanças.


Neste trato e sol, areia e sal
Deságua, exausto e só,
Tênue e trêmulo tracinho de água doce,
Aqui findou-se,
Sumindo no mar,
A dura peleja
Da nascente Miranda,
Quase nada,
Com ondas salgadas,
Onde veio, tranquila, se entregar.


E trouxe e traz e doa,
A quem quiser,
Água fria no peito-de-pé,
Lembranças serranas.
À praia plana,
Onde morre e acaba, 
Oferece,
Em primeira e derradeira prece,
A alegria miúda das piadas.


Ao pescador não importa
Os sinais cá da terra:
Só lhe toca a leitura,
As linhas tortas,
Do voo que passou.
Sempre acerta.
Tem ouvidos aos lampejos que o mar diz,
Lê na pauta deste arco sob o céu,
Sabe ver quando é tempo e não maldiz,
Jamais,
Gesto que vem dos bisavós dos pais,
O significado das marés.


Quem primeiro o contou
Há muito que partiu.
Até mesmo quem disse,
Já faz tempo, que tudo era crendice,
A contagem dos meses consumiu.
E essa história de vento e maresia,
Logo enredo de lenda e fantasia,
É parte inarredável da paisagem,
Tal qual estes coqueiros e as jangadas,
O canto agora extinto da jandaia,
A lua sobre o mar o plenilúnio,
Temores de infortúnio,
Tudo já tão cantado e recantado.
As palavras passeiam,
E é difícil se essas pegadas na areia molhada
São rastro de vivente ou de visagem.


E de repente exsurge, em pleno breu,
Uma festa de luzes:
Candelabros e cruzes
No perfil de um navio iluminado.
Sob a branca bandeira da memória
Demanda a trajetória
Traçadas pelos barcos do passado,
Falas fenícias se fundem nos ares
Às vozes ancestrais
Dos portos derruídos e dos cais,
Numa bela babel de sete mares.
Zrpa agora o navio afortunado
E talvez rume,
Numa canção de remos e naufrágios,
A alguma tropical última Tule.

FONTE: Livro A história de São Gonçalo - O São Gonçalo do Amarante que me contaram e o São Gonçalo que eu conheci / p. 56-59 / Autor: José Francisco de Lima Ferreira (Major lima)